domingo, 13 de novembro de 2011

Lembrar.

Abri o livro. Aquele que há tempos estive querendo ler.

Mas era tanta coisa, tantas lembranças emaranhadas correndo simultaneamente pela minha cabeça, que não consegui me concentrar.

Me esforcei. Apertei os olhos, voltei para o livro. O conto era interessante. Falava de amores, amizades e conflitos. Mas, mais uma vez me perdi.

Me perdi, talvez, naquela segunda página que me fez lembrar de um momento da minha infância. Ou mesmo na primeira página, onde já estava totalmente absorta em minhas próprias lembranças. Não consegui prestar atenção na estória que estava escrita naquele livro empoeirado, comprado no sebo. Me perdi mesmo foi na estória de tudo que aconteceu. Aquela que o tempo escreveu em minha memória. Aquela que por anos ignorei, para não precisar refletir sobre certas coisas.

Mas agora eu queria. Lembrava-me dos fatos, em ordem, como páginas escritas de coisas que vivi. Empolguei-me em prosseguir, pois havia algumas memórias em particular que eu gostaria muito de reler. Algumas páginas de memórias que talvez me fizessem entender tudo de maneira mais fácil. Memórias que esclareceriam como eu vim parar aqui. Neste momento. Neste destino.

O curioso é que, quanto mais eu me aproximava de recordar aqueles fatos que eu tanto queria, minhas memórias começavam a ficar confusas e nebulosas. Por mais que eu me esforçasse em lembrar, me concentrasse, parecia que tudo se esvaia numa nuvem cinza-escura bastante densa.

Lembrava de alguns fragmentos, e mentalmente tentava organizá-los como num quebra-cabeças. Não tive êxito. Não importava como eu tentasse, as partes não se encaixavam de forma coerente.

Pensei que talvez eu tivesse me fechado tanto, que acabei por guardar algumas memórias para que ninguém, nem mesmo eu, pudessem saber delas.

Teria eu escrito meus pensamentos num velho manuscrito, num idioma extinto, trancado com um cadeado que nem eu poderia abrir?

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Recomeçar.

Recomeçar... pra mim esta palavra soa tão revigorante e estimulante.
Mas não é assim tão fácil, o ato de recomeçar.
Jogar tudo pra trás, voltar ao marco zero... Ter toda a expectativa de que, melhor que antes, você vai começar de novo, uma nova história, num papel em branco. 
Mas e todos os rascunhos? Todos os esboços, todas as certezas?
Essa é a parte que eu me refiro como a mais dura de todas. Desapegar. Amassar os rascunhos, jogá-los no lixo. Excluir os esboços salvos, excluir backups. Eliminar tudo. Limpar. Se purificar. Comprar um caderno novo. Escrever novamente aquela primeira linha, e de um jeito diferente.
Escrever com uma caneta de outra cor. Fazer uma loucura, um rabisco, uma letra diferente. Mudar.

Respirar fundo sem tentar lembrar do que outrora esteve escrito naquela outro texto descartado. Buscar inspiração em outros livros, outras músicas, outras flores. Buscar assuntos inusitados, arriscados, imprecisos, pra poder ousar.

Ah, a ousadia. Virtude que poucos tem. Quisera eu também ter o talento para ousar mais. Ter coragem de expressar sempre o que quero, o que vai me deixar feliz de fato, o que realmente sinto, sem preocupar-me com o que irão pensar ou o que irão falar.

A gente se deixa levar e perde a coragem... Alguma insegurança boba todos temos. Aquela auto censura... Aquilo de revisar tudo o que foi escrito e pensar: "Isso está uma droga! Pura estupidez! Eu estava errado!"... Mas acabamos por nos curvar tanto diante de nossa própria censura, que esquecemos o quanto é saudável discordar de nós mesmos. O quanto é construtivo o pensamento de auto crítica e o quanto isso nos faz melhorar continuamente.

Eu já sei. Já entendo. Tenho todos os ingredientes nas mãos para o livro perfeito do que será de mim. Mas sei que como ser humano que sou, ao menos algum desses comuns enganos vou cometer. Sempre vem aquela lembrança daquele texto. Aquele outro começo, o primeiro começo. Aquele que não deu certo. Sim. Aquele que eu resolvi virar a página para poder recomeçar.