Abri o livro. Aquele que há tempos estive querendo ler.
Mas era tanta coisa, tantas lembranças emaranhadas correndo simultaneamente pela minha cabeça, que não consegui me concentrar.
Me esforcei. Apertei os olhos, voltei para o livro. O conto era interessante. Falava de amores, amizades e conflitos. Mas, mais uma vez me perdi.
Me perdi, talvez, naquela segunda página que me fez lembrar de um momento da minha infância. Ou mesmo na primeira página, onde já estava totalmente absorta em minhas próprias lembranças. Não consegui prestar atenção na estória que estava escrita naquele livro empoeirado, comprado no sebo. Me perdi mesmo foi na estória de tudo que aconteceu. Aquela que o tempo escreveu em minha memória. Aquela que por anos ignorei, para não precisar refletir sobre certas coisas.
Mas agora eu queria. Lembrava-me dos fatos, em ordem, como páginas escritas de coisas que vivi. Empolguei-me em prosseguir, pois havia algumas memórias em particular que eu gostaria muito de reler. Algumas páginas de memórias que talvez me fizessem entender tudo de maneira mais fácil. Memórias que esclareceriam como eu vim parar aqui. Neste momento. Neste destino.
O curioso é que, quanto mais eu me aproximava de recordar aqueles fatos que eu tanto queria, minhas memórias começavam a ficar confusas e nebulosas. Por mais que eu me esforçasse em lembrar, me concentrasse, parecia que tudo se esvaia numa nuvem cinza-escura bastante densa.
Lembrava de alguns fragmentos, e mentalmente tentava organizá-los como num quebra-cabeças. Não tive êxito. Não importava como eu tentasse, as partes não se encaixavam de forma coerente.
Pensei que talvez eu tivesse me fechado tanto, que acabei por guardar algumas memórias para que ninguém, nem mesmo eu, pudessem saber delas.
Teria eu escrito meus pensamentos num velho manuscrito, num idioma extinto, trancado com um cadeado que nem eu poderia abrir?