Mas não é assim tão fácil, o ato de recomeçar.
Jogar tudo pra trás, voltar ao marco zero... Ter toda a expectativa de que, melhor que antes, você vai começar de novo, uma nova história, num papel em branco.
Mas e todos os rascunhos? Todos os esboços, todas as certezas?
Essa é a parte que eu me refiro como a mais dura de todas. Desapegar. Amassar os rascunhos, jogá-los no lixo. Excluir os esboços salvos, excluir backups. Eliminar tudo. Limpar. Se purificar. Comprar um caderno novo. Escrever novamente aquela primeira linha, e de um jeito diferente.
Escrever com uma caneta de outra cor. Fazer uma loucura, um rabisco, uma letra diferente. Mudar.
Respirar fundo sem tentar lembrar do que outrora esteve escrito naquela outro texto descartado. Buscar inspiração em outros livros, outras músicas, outras flores. Buscar assuntos inusitados, arriscados, imprecisos, pra poder ousar.
Ah, a ousadia. Virtude que poucos tem. Quisera eu também ter o talento para ousar mais. Ter coragem de expressar sempre o que quero, o que vai me deixar feliz de fato, o que realmente sinto, sem preocupar-me com o que irão pensar ou o que irão falar.
A gente se deixa levar e perde a coragem... Alguma insegurança boba todos temos. Aquela auto censura... Aquilo de revisar tudo o que foi escrito e pensar: "Isso está uma droga! Pura estupidez! Eu estava errado!"... Mas acabamos por nos curvar tanto diante de nossa própria censura, que esquecemos o quanto é saudável discordar de nós mesmos. O quanto é construtivo o pensamento de auto crítica e o quanto isso nos faz melhorar continuamente.
Eu já sei. Já entendo. Tenho todos os ingredientes nas mãos para o livro perfeito do que será de mim. Mas sei que como ser humano que sou, ao menos algum desses comuns enganos vou cometer. Sempre vem aquela lembrança daquele texto. Aquele outro começo, o primeiro começo. Aquele que não deu certo. Sim. Aquele que eu resolvi virar a página para poder recomeçar.
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