Estava, há pouco, conversando com uma querida amiga, que nesse momento passa por uma pequena instabilidade em sua vida.
Ela me disse uma coisa que me fez parar pra pensar: “O problema é que eu não sei fazer as coisas pela metade. Não sei amar pela metade”, e ainda disse que queria aprender a “ser metade”, apesar de não achar que essa intensidade de se dedicar “por inteiro” fosse um defeito. E talvez tudo fosse mais fácil se nos deixássemos metade para os outros e guardássemos a outra metade inteiramente e exclusivamente para quem merece mais: nós mesmos...
E talvez seja mesmo mais fácil...
Logo olhei pra dentro, como sempre faço. A graça das minhas reflexões é aplica-las em minha própria realidade e assim enlouquecer um pouquinho com meus pensamentos que ficam dançando aqui na minha cabeça... Deve ser normal, né?
Pensei em tudo. No quanto eu guardo de mim para mim. E talvez eu guarde mesmo uma metade. Mas para que? Por quê? Não sei. Tentei pensar numa razão pra isso e não encontrei.
Pensei também no quanto eu dedico. Tenho dedicado metade, talvez... Tanto para mim quanto para as outras pessoas/coisas. E então? A outra metade eu escondo? Escondo de quem?
Pensando mais eu acabei por perceber que escondo uma metade da outra. Já cansei de conversar com o espelho e discordar dele. Sempre me foi um grande impasse essa “divisão de mim” (e foi onde tudo começou, não foi?). E talvez eu tenha entendido, com esse diálogo, com essa reflexão, o motivo de tudo isso: sou metade.
Logo me lembrei de meu poema favorito, de Fernando Pessoa, que o escreveu como Ricardo Reis:
Para ser Grande
“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive”
Nossa! Eu sempre admirei estas palavras, sempre achei que fossem inspiradoras. Mas nunca as havia sentido como senti agora, quando reli. Olhei novamente e vi exatamente o que sinto falta: ser inteira.
Talvez seja mais uma questão de coragem, sabe? Coragem para ver que “nada teu exagera ou exclui”, pois tudo é parte de você. E também coragem para por “quanto és no mínimo que fazes”, para arriscar mais, encarar de vez o que se quer, sem ficar julgando o que eu quero e deixo de querer.
Eu já comentei por aqui em outros textos que eu me limito muito, me censuro, me impeço. E de que? De ser inteira. E por isso sou menos sincera comigo. Muitas vezes não me permito ver a verdade da outra metade. E essa verdade é a minha verdade também!
Há uma enorme dúvida nisso tudo. E por mais que esse fato venha a me trazer problemas futuros, tô pensando em me esforçar pra apagar a linha que divide minhas metades, hoje tão antagônicas, e fazer delas uma só. Uma eu. Sincera, verdadeira e espontânea. Para mim. Para tudo.
Termino com mais um poema... de Oswaldo Montenegro:
Metade
“Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.”