sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Pela metade

Estava, há pouco, conversando com uma querida amiga, que nesse momento passa por uma pequena instabilidade em sua vida.

Ela me disse uma coisa que me fez parar pra pensar: “O problema é que eu não sei fazer as coisas pela metade. Não sei amar pela metade”, e ainda disse que queria aprender a “ser metade”, apesar de não achar que essa intensidade de se dedicar “por inteiro” fosse um defeito. E talvez tudo fosse mais fácil se nos deixássemos metade para os outros e guardássemos a outra metade inteiramente e exclusivamente para quem merece mais: nós mesmos...
E talvez seja mesmo mais fácil...

Logo olhei pra dentro, como sempre faço. A graça das minhas reflexões é aplica-las em minha própria realidade e assim enlouquecer um pouquinho com meus pensamentos que ficam dançando aqui na minha cabeça... Deve ser normal, né?
Pensei em tudo. No quanto eu guardo de mim para mim. E talvez eu guarde mesmo uma metade. Mas para que? Por quê? Não sei. Tentei pensar numa razão pra isso e não encontrei.
Pensei também no quanto eu dedico. Tenho dedicado metade, talvez... Tanto para mim quanto para as outras pessoas/coisas. E então? A outra metade eu escondo? Escondo de quem?

Pensando mais eu acabei por perceber que escondo uma metade da outra. Já cansei de conversar com o espelho e discordar dele. Sempre me foi um grande impasse essa “divisão de mim” (e foi onde tudo começou, não foi?). E talvez eu tenha entendido, com esse diálogo, com essa reflexão, o motivo de tudo isso: sou metade.
Logo me lembrei de meu poema favorito, de Fernando Pessoa, que o escreveu como Ricardo Reis:

Para ser Grande

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive”

Nossa! Eu sempre admirei estas palavras, sempre achei que fossem inspiradoras. Mas nunca as havia sentido como senti agora, quando reli. Olhei novamente e vi exatamente o que sinto falta: ser inteira.
Talvez seja mais uma questão de coragem, sabe? Coragem para ver que “nada teu exagera ou exclui”, pois tudo é parte de você. E também coragem para por “quanto és no mínimo que fazes”, para arriscar mais, encarar de vez o que se quer, sem ficar julgando o que eu quero e deixo de querer.

Eu já comentei por aqui em outros textos que eu me limito muito, me censuro, me impeço. E de que? De ser inteira. E por isso sou menos sincera comigo. Muitas vezes não me permito ver a verdade da outra metade. E essa verdade é a minha verdade também!
Há uma enorme dúvida nisso tudo. E por mais que esse fato venha a me trazer problemas futuros, tô pensando em me esforçar pra apagar a linha que divide minhas metades, hoje tão antagônicas, e fazer delas uma só. Uma eu. Sincera, verdadeira e espontânea. Para mim. Para tudo.

Termino com mais um poema... de Oswaldo Montenegro:

Metade

“Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.”

4 comentários:

  1. De fato, eu não sei amar pela metade... Vc bem sabe, tanto que colocou isso como as primeiras palavras do post...
    Sofro muito por não ser 'metade' de uma mulher... Por ser uma inteira, e assim sendo, me entregar perfeita e inteiramente qdo sou solicitada...

    O que é mais difícil nisso tudo é que mesmo querendo ser a metade, não consigo... Mas também não acho alguém que valorize o fato e a presença de uma Larissa inteira...

    O que consola, é saber que vc foi capaz de tudo e seria capaz de mais para continuar a ser inteira... Mas, como tudo na vida quase nunca depende de uma só vontade, não pude continuar...

    O medo de repassar pelas mesmas frustrações ainda não foi capaz de me fechar para o mundo, mas tenho fé *pois quero que aconteça* que dessa vez, eu possa me fechar...

    Ser inteira é um dos desafios mais dolorosos que uma pessoa pode passar... Pois as más interpretações, intenções *más* machucam as investidas das Inteiras nas Metades...

    Dor passa... Caráter não...
    Amores passam... Amor próprio não...
    Pessoas passam... Eu por mim não...

    Só um detalhe... Adorei o "que nesse momento passa por uma pequena instabilidade em sua vida"...
    Pequena nem tanto, grande... Grande pq sou inteira... Pequeno será para aquele envolvido que é só a metade ;)

    Eu te adoro demais minha irmã... Ore por mim... Vc sabe o medo que estou...

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  2. Ahhh, amanhã vou me dar a oportunidade de escrever no blog...
    Acho que mereço esse momento 'fuck off'...

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  3. Lari, coloquei "pequena instabilidade" pois é exatamente isso. Tudo isso é pequeno perto de você. Eu acredito na sua força, e sei que um dia vc vai olhar pra trás e concordar comigo ;) Fica bem, sweetheart <3

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  4. Ser metade é normal. Mas não é normal ser metade pela vida inteira.

    Não fique escondendo uma metade da outra, porque isso é total medo de se conhecer por inteiro. :)

    sobre amar pela metade, jamais concordarei: se a gente nao mergulha de cabeça, nunca vamos ver nossos limites. não precisa ter medo, porque o maximo que acontece é a gente se machucar. mas tudo sara! :)

    umas contradições não devem impedir a gente de conhecer o todo. O medo nos limita muito, mas vamos ser fortes: vamos não ter medo aos poucos.

    gostei do texto dri, parabéns!

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